Desculpem minha insistente tendência a inconformidade. Não nasci para ter o destino dos outros.
Desculpem minha loucura em não me considerar apenas uma simples ferramenta do sistema que vive apenas para ser mais um, menos um, menos que todos.
Respiro ofegante, porque o mundo me sufoca e quer me matar.
Por que eu sou o menos admirado, o mais insensível e opaco dos seres humanos. Homens assim são propensos ao absurdo de não se orientar por meio de rótulos; mais do que isso, são capazes de criticá-los.
segunda-feira, 16 de março de 2009
sexta-feira, 6 de março de 2009
Oração Pastoral de Aelred de Rielvaux (1110-1167)
Aelred de Rielvaux ( 1110-1167), monge cisterciense inglêsOração Pastoral (in Revue bénédictine 1925, p. 283 ; trad. alt. Tournay)
«Minha ovelhas escutam a minha voz; eu as conheço e elas me seguem»
Oh Jésus, oh Bom Pastor, pastor realmente bom, pastor cheio de clemência e de ternura, a ti grita um miserável e pobre pastor -- sim, bem fraco, bem incapaz, bem inútil, e, no entanto, com tudo isso, na realidade pastor de ovelhas. A ti, oh Bom Pastor, grita este pobre pastor que está longe de ser bom; a ti ele grita, preocupado com ele próprio, preocupado com suas ovelhas... Senhor, tu conheces meu coração: tu sabes tudo o que deste a teu servidor, e ele não tem senão que um desejo, que é de entregá-lo totalmente às tuas ovelhas, de dedicar-me totalmente a elas. Muito mais, eu quereria entregar-me a mim mesmo a elas. Que assim seja, meu Senhor, sim, que assim seja!...Ensina-me somente, eu te rogo, pelo teu Espírito Santo, ensina teu servidor como ele deve se dedicar a elas. Lembra-me Senhor pela tua graça inefável, de suportar com paciência suas enfermidades, de compadecer-me delas com ternura, de curá-las judiciosamente. Que eu apreenda, inspirado pelo Espírito Santo, a consolar os aflitos, a dar coragem aos que não a tem, a reerguer aqueles que caem, a me sentir fraco com os fracos,... a fazer tudo a todos para todos salvar. Coloque sempre nos meus lábios a palavra verdadeira, a palavra certa, a palavra justa, para que todos cresçam na fé, esperança e amor, em castidade e em humildade, em paciência e obediência, em fervor de espírito e pureza de coração.Como tu lhe deste este guia cego, este mestre ignorante, este chefe incapaz, concedei, Senhor, a este mestre, ciência, luz e competência.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Entrevista com John Zerzan por John Filiss
John Zerzan pode bem ser considerado o autor mais radical no planeta. È um tanto irônico que a publicação do Unabomber, Sociedade Industrial e o suas Conseqüências*, tenha trazido os pontos de vista de Zerzan à atenção nacional – irônico porque seus escritos são muito mais radicais do que os do plantador de bombas que pensavam o ter influenciado. Para Zerzan a queda dos céus da humanidade não teve início com o industrialismo e nem mesmo com a agricultura, mas sim com a aceitação da cultura simbólica, da linguagem, da arte, e o número. A cultura, ao invés de ser vista como nossa maior emancipadora, é uma mediação a qual nos distância de uma aceitação sensual da realidade, de até aonde chega nossa capacidade de compreendermos a nós mesmos dentro do momento. A linguagem é comunicação tornando-se presa ao assunto, arte é um preenchimento de uma realidade infinitamente mais rica, número é a prática de uma semelhança ilusória que consome nosso mundo de interesse. Em seu livro de ensaios reunidos, Elementos de Rejeição e Futuro Primitivo (Elements of Refusal and Future Primitive), mapeia uma crítica primitivista que ele tem buscado no meio social anarquista nas últimas duas décadas. Sua fama recente, tendo início com um artigo publicado no New York Times, e prolongada com entrevistas de rádio e televisão, focou-se imensamente em seu status de ser um dos poucos críticos da tecnologia que não acusou o Unabomber desde o início. Com o advento de um mundo baseado na biotecnologia e na engenharia genética, pode-se colocar Zerzan na tradição dos sábios Taoístas, de Diógenes, e Rousseau como o último dos grandes expoentes do homem selvagem não limitado pelas regras dominantes – ou talvez ele seja o primeiro em uma nova tradição da qual o impacto ainda há que ser visto. * O manifesto do Unabomber veio a público em 19 de setembro de 1995, publicado no jornal Washington Post. Uma crítica a sociedade tecnológica e capitalista, supostamente escrita por Ted. Kaczynski que antes de ser preso, em 1996, enviou - ao longo de 18 anos - 16 bombas pelo correio americano, que deixaram três mortos e 23 feridos.
Q: O ambientalismo tem sido sempre um assunto um tanto depressivo para mim. Em contraste, o primitivismo sempre me pareceu confiante em sua luta para reconciliar as tensões entre humanos e o mundo natural. Ao invés de estar em oposição com a natureza, nos procuramos realizar nossos desejos de maneira, que o nosso mundo de televisões e shoppings nunca podem preencher. Quais comparações você faria entre o ambientalismo tradicional e o primitivismo?A: Eu gosto da distinção que você faz aqui, e que me parece frutífera. Para mim o primitivismo fornece um respaldo para o ambientalismo. Refere-se, como um princípio ou uma inspiração, para os dois milhões de anos durante os quais o ser humano viveu em harmonia com o meio ambiente, e não como um poder externo exercido sobre ela. O ambientalismo muitas vezes permanece com a perspectiva reformista de relevar somente alguns assuntos que são pertinentes. A percepção duma história de longa duração dos problemas ajuda, visto que, a observação das origens da degradação e da natureza bem como todas as suas facetas estão conectadas .
Q: Embora você tenha criticado tais fundamentos da civilização como a arte, linguagem, e número, você até agora absteve-se de uma crítica ao uso de ferramentas. Isto é interessante, pois a maioria das pessoas enxergaria o uso de ferramentas como um percussor direto da nossa sociedade tecnológica. Em que momento você veria o uso das ferramentas culminando em atividade alienada?A: A constatação é muitas vezes feita de maneira que haja uma suave mudança gradual entre o uso de simples instrumentos e o mundo atual de alta-tecnologia, de que não há distinção qualitativa que possa ser feita em qualquer momento ao longo dessa linha de desenvolvimento, sem um lugar para “desenhar uma linha” separando o positivo do negativo. Mas minha hipótese sobre o trabalho é a que a divisão do processo produtivo marca o momento dessa separação, com conseqüências terríveis que desdobram-se de maneira acelerada ou cumulativa. A especialização divide e estreita o individuo, instaura a hierarquia, e cria a dependência e trabalha contra a autonomia. Especialização que também impulsiona o industrialismo e desde já conduz diretamente para a crise ecológica. Ferramentas ou papéis que envolvem a divisão do trabalho engendram pessoas divididas e dividem a sociedade.
Q: Que exemplos o passado oferece a nós, pessoas que renunciaram um dado nível de tecnologia em favor de um estilo de vida mais holístico e natural?A: Um exemplo Norte Americano de pessoas que renunciaram a uma existência tecnicista e domesticada, é a do colonizador que, “partiu para Croatan.” ( Referencia aos colonizadores que habitaram a primeira colônia Inglesa em Roanoke, que à abandonaram para viver com uma tribo indígena local. Eles deixaram a inscrição “fomos para Croatan,” referindo-se à tribo – J.F) Evidentemente muito poucos Europeus abandonaram os postos avançados civilizados nos séculos 17 e 18 e se uniram as diversas comunidades Nativo Americanas.
Q: Seus escritos parecem sugerir uma Era Dourada para humanidade durante muito ou todo o período Paleolítico. Ainda assim, eu não sinto que suas idéias são contingentes sobre a idéia de um Éden no passado, no mais literal e extremo sentido. A vida um dia pode ter sido muito mais imediata e satisfatória, mas devem ter existido algumas falhas em algum momento para nos trazer ao presente. Eu estou curioso sobre em que grau você se sente anexado à idéia de uma utopia passada (a qual é claramente impossível de provar completamente), como sendo oposta à aplicação de conceitos úteis do passado sobre a base de valores presentes.A: Eu penso que você esteja certo ao sugerir que nos devíamos evitar a idealização da pré-história, de recusar sugeri-la como um estado de perfeição. De outro ponto de vista, a vida de caçador-coletor parece ter sido marcada, em geral, pela mais longa e mais bem sucedida adaptação à natureza jamais alcançada pelos seres humanos, um alto grau de semelhança entre gênero, a abstenção da violência organizada, tempo livre significante, direitos iguais na divisão dos princípios, e uma saúde livre de doenças. Desta maneira me parece instrutivo e inspirador, mesmo se imperfeito e talvez nunca totalmente conhecido para nós.
Q: Umas das questões mais frequentemente perguntadas em relação ao primitivismo, é se seus adeptos procuram um retorno literal para os estilos de vida primitivos, ou se simplesmente estão escavando o passado a procura de conceitos úteis. A: ( Panfleto anarquista de Detroit) Quinto Estado, em sua crítica parcial a civilização, tem longamente insistido que um retorno a um estado de não-civilização não é o que eles vêem como algo que seja possível ou desejável. Eu não estou convencido de que um “retorno” real deva ser descartado. Se não um retorno literal, então o que? Isto é, eu vejo isso como uma questão aberta.
Q: Bem, vamos assumir por agora que um retorno literal a um estado primitivo é desejável. Seus escritos foram até o momento uma crítica a arte, números, até mesmo a linguagem. Como você visualizaria um mundo, digamos, sem linguagem?A: Pensar em um mundo sem linguagem requer um enorme salto especulativo. De onde estamos agora é extremamente difícil sugerir princípios ou descobrir o significado da vida em um mundo baseada na comunicação não-simbólica, entretanto é claro que alguma dessa forma de comunicação existe mesmo agora. Freud achou que algum tipo de telepatia possuía forte influência antes da linguagem; amantes não precisam de palavras, como diz o ditado. Essas são dicas na direção da comunicação não mediada. Eu tenho certeza que você pode pensar em outros exemplos!
Q: Inúmeros críticos têm questionado que sua rejeição a cultura simbólica deixa o radical em potencial sem bases para desafiar a ordem existente.A: Minha sugestão de posicionamento é a que somente a rejeição da cultura simbólica provém um desafio suficientemente profundo ao que é a parte central daquela cultura. Eu posso estar errado, mas até agora eu não tenho visto argumentos persuasivos para abandonar esse ponto de vista. E mesmo se acontecer de ser um direção errada talvez o debate será frutífero em possibilidades não planejadas.
Q: Qual é sua resposta as pessoas que afirmam que o caminho da progressão tecnológica é irreversível?A: É bem possível que seja irreversível, mas a única maneira de saber é desafiando-o.Se alguém conclui que o caminho do tecno-progresso está provando ser desastroso, então esse alguém é obrigado a pará-lo, a revertê-lo. Isso é uma questão de moralidade básica, é o que me parece.
Q: Eu acho que é interessante notar o quão pouco genuína e construtiva é a crítica direcionada a tecnologia, talvez criando a idéia de que seja uma auto-realização irreversível. Em todo lugar alguém pode encontrar críticas de quase qualquer aspecto da sociedade tecnológica, mas raramente alguma que englobe o todo. A: Como muito se opõem a crítica do todo! Por exemplo, um dos princípios cardeais do ethos pós-moderno reinante é a rejeição da totalidade, rejeição da idéia exata de que podemos compreender o todo. E em geral o sistema nunca recompensou exatamente tais oposições, contra o pensamento geral. A cultura da negação é muito forte – pense em quanto o discurso político domintante é pouco questionado. É muito difícil ser publicado, muito difícil quebrar o monopólio da ignorância imposta. E, contudo a realidade, creio eu, está começando a forçar uma abertura. Nós ouvimos algumas, não muitas, mas algumas vozes que confrontam o quadro geral, seu caráter fundamental.
Q: Sua resposta à afirmação habitual de que a tecnologia é neutra.A: A Tecnologia nunca foi neutra, como uma ferramenta discreta desassociada de seu contexto. Tem sempre participado e expressa os valores básicos do sistema social no qual está embutida. A Tecnologia é a linguagem, a textura, a personificação dos arranjos sociais que ela mantém unida. A idéia de que seja neutra, de que é separável da sociedade, é uma das maiores mentiras existentes. É óbvio porque aqueles que defendem a armadilha mortal high-tech, querem que nós acreditemos que a tecnologia é de alguma maneira neutra.
Q: Não deve o abandono gradual da tecnologia ocorrer em uma base mundial, evitando que nos tornemos vulneráveis àqueles que não deixarão cair as rédeas?A: Sim, realmente parece necessário que o movimento anti-tecnológico torne-se global o mais rapidamente possível, para que consiga obter sucesso. O sistema de tecnologia e capital é global e altamente interdependente, e é somente tão forte quanto sua ligação mais fraca. A esse fato deve ser adicionado o desencanto disseminado com a “promessa” da tecnologia. Os dois são, ou serão, uma potente combinação para o nosso lado.
Q: Você acha que a maioria da população é mais desconfiada em relação à tecnologia do que a nossa dita elite política?A: Todo mundo hoje é bem saturado pela mídia e suas constantes mensagens pró-tecnologia em todos os níveis. Mas aqueles que o manifesto Unabomber* chamam de “excessivamente-socializados” são talvez mais aptos a serem uma elite política de classe média e por essa razão são provavelmente menos desconfiados da canção da sirene tecnológica. * O manifesto do Unabomber veio a público em 19 de setembro de 1995, publicado no jornal Washington Post. Uma crítica a sociedade tecnológica e capitalista, supostamente escrita por Ted. Kaczynski que antes de ser preso, em 1996, enviou - ao longo de 18 anos - 16 bombas pelo correio americano, que deixaram três mortos e 23 feridos.
P: Algum pensador(s) ou teorista(s) que você gostaria de levar à prova por uma falta de entendimento sobre os assuntos relevantes à tecnologia?R: Ainda existem muitos teoristas que parecem pouco entender a questão da tecnologia. Muitos senão todos pensadores pós-modernos evitam o assunto pela simples razão de que eles não contestam nada, rejeitando a própria idéia de um pensamento opositor. Aceitando tudo em sua maneira cínica e relativista, eles (ex. Baudrillard) certamente não enfrentam a tecnologia ou resistem a ela. Por outro lado, por exemplo, eu recomendo a Tecnologia de Lorenzo Simpson, “Tempo e as Conversações da Modernidade”, no qual demonstra como a tecnologia — com sua contrapartida intelectual, pós-modernista — esvazia a existência social e cria um clima ausente de sentido.
P: Tem havido surpreendentemente pouca oposição à instalação de câmeras de vigilância por todas cidades nos EUA. O que você pensa poder ser a implementação de uma tecnologia a qual pode finalmente provocar uma grave reação? A clonagem de um ser humano? Um computador implantado no cérebro?R: Muito consentimento a respeito de câmeras de vigilância fora dos interesses pessoais de segurança, aparentemente. Mas sim, uma pessoa pensaria que a clonagem humana ou cérebros biônicos poderiam horrorizar a maioria das pessoas. Ludditas* como eu esperam que as novas alturas invasoras de uma tecnologia sempre-colonizadora irão levar as pessoas a questionar toda sua trajetória e lógica. Como Paul Shepard disse sobre o gosto pela cultivo da terra de Gary Snyder, ele esquece que mesmo a horticultura muito simples é nada mais que o primeiro passo na estrada para a engenharia genética. É tudo uma questão de domesticação, em outras palavras. Participar e controlar ou dar nova forma a natureza, é comprometer-se com uma orientação que nos leva em direção a clonagem humana e todo resto.
P: De quais grupos você encontrou um apoio inesperado para uma visão mundial que questione o valor da tecnologia? R: Um amigo Latino meu, recentemente disse que ele achava que poucas pessoas do terceiro mundo estão agora ansiando pela tecnologia do primeiro mundo. Na medida que isto é verdade, isso demonstraria uma mudança de grande importância. Eu também noto alguns jovens vendo através dos atrativos da tecnologia. Isto é menos surpreendente, eu imagino, e eu não sei quantos garotos estão abertos a maneira de enxergar do “primitivismo”, mas isso é um desenvolvimento vital que está se espalhando, pelo menos em algum grau.
P: Quando foi a primeira vez que você enxergou através dos “atrativos da tecnologia?” Você sempre se sentiu em oposição a ela em algum nível? Existiu algum evento ou campo de estudo que primeiro provocou você a desenvolver semelhante crítica abrangendo tudo?R: Nos anos setenta lentamente começou a nascer em mim, que o conceito de “revolução,” entre outros, era de alguma maneira muito inadequado. Isto me atormentou durante um período quando eu estava fazendo meu trabalho de graduação sobre história social e trabalhista. O primeiro “avanço” importante para mim foi em termos da Revolução Industrial na Inglaterra. Especialmente, tornou-se claro que o sistema de fábricas foi introduzido em grande parte como uma maneira de controle social. Os artesões dispersados foram destituídos de sua autonomia e levados juntos para as fábricas para serem desqualificados e disciplinados. Isto mostra que a tecnologia não foi de forma alguma “neutra”. Esta descoberta me ajudou a começar a ver como a divisão do trabalho é basicamente uma subtração de poder e alienadora. Qualquer pessoa precisa olhar a tecnologia como um sistema que contêm os valores profundos da ordem social que a personifica. Nunca é uma simples questão de “ferramentas” ou dispositivos.
P: Quais são alguns dos seus próximos projetos que nos podemos esperar com entusiasmo?R: Estou trabalhando em um ensaio sobre niilismo, e tentando publicar alguns livros também. Tem que haver mais trabalhos anti-tecnológicos, e mesmo anti-civilização disponíveis ao público. Mesmo as maiorias do editores anarquistas, como a AK e a Autonomedia, não compreenderam a importância do projeto, ou o interesse em semelhante pensamento.
P: Eu gostaria de lhe perguntar mais algumas questões a respeito do Unabomber. Quando a “Sociedade Industrial e o seu Futuro*” foi pela primeira vez disponibilizado, você foi reconhecido antecipadamente como uma possível influência dos pontos de vista de FC. Você tem algum comentário sobre o tratado do Unabomber?R: Eu considero o texto Sociedade Industrial e seu Futuro um texto extremamente importante. Basicamente, ele mostra como a sociedade tecnológica torna impossível alcançar tanto a liberdade como a satisfação. De maneira muito clara, a prosa acessível explica o caminho sem saída que é o industrialismo. Jacques Ellul é claramente uma grande influência, mas eu não tenho nenhum conhecimento de qualquer influência americana contemporânea, anarquista ou de outro aspecto.*No ano de 1995 veio a público o ensaio de "A sociedade industrial e o seu futuro", no qual Kaczynski danava a moderna tecnologia em bloco. A frase inicial já dizia tudo: "A Revolução Industrial e suas conseqüências foram um desastre para a raça humana".
P: Em geral, qual é sua opinião sobre os métodos do Unabomber?R: Os métodos do Unabomber foram o resultado da frustração. Evidentemente, ele não podia encontrar outros que desejavam confrontar a loucura tecnológica, nem podia ele encontrar um editor para Sociedade Industrial e o seu Futuro, apesar de se esforçar por anos em ambas as frentes.
P: Tendo seus próprios pontos de vistas ligados a alguém que é o tema de uma investigação massiva não é necessariamente uma posição invejável. Ocorreram qualquer incidentes fora do comum antes da prisão de Ted Kaczynsky?R: No verão de 95, isso é, no ano antes da sua prisão, minha casa foi invadida. A coisa estranha sobre isto, foi o fato que minha agenda de endereços e alguns tênis esportivos foram levados, enquanto que algumas coisas portáveis e visíveis de algum valor foram deixadas intocadas. Também naquele verão, algumas cartas minhas foram interceptadas em algum lugar ao longo da linha. Em pelo menos três casos que eu verifiquei, cartas foram enviadas mas nunca chegaram ao seu destino.
P: Você se encontrou com Ted Kaczynski em diversas ocasiões, e continua a manter contato com ele. Qual é sua impressão sobre ele em um nível pessoal?R: Em minhas visitas com Ted, eu o achei educado, amigável, muito firme, e possuindo um senso de humor. Ele certamente não deu quaisquer ares de superioridade e me pareceu uma pessoa bastante paciente e auto-disciplinada. O advogado Tony Serra e eu concordamos: Ted não é louco.
P: Existiram quaisquer irregularidades no julgamento dele que você gostaria de chamar a atenção?R: Não existiu julgamento. Ele foi coagido a aceitar um acordo de súplica ( por prisão perpétua) depois que o juiz negou tanto sua tentativa de despedir e substituir seus advogados de defesa e sua tentativa de defesa própria. Ele foi deixado sem nenhuma outra alternativa senão a do argumento de insanidade que ele sempre rejeitou. O que fica visível é o fato de que o conjunto de instituições legais e políticas mantiveram-se unidas em sua recusa à permitir que ele fosse julgado em um tribunal e apresentasse suas idéias. O sistema demonstrou isso deixando claro que a pena de morte foi uma prioridade menor do que negar o direito de Ted de ser escutado. Um tratamento muito bom é o de Bill Finnegan* em “Defendendo o Unabomber” escrito no New Yorker em 16 de março, 1998 . Finnegan traz à tona os pontos acima persuasivamente, e é o único escritor a ter feito isso. * Bill Finnegan, Jornalista que publicou artigos sobre o Unabomber no Jornal New Yorker.
P: Se eu tivesse que advinhar, eu diria que muito poucas pessoas apoiaram as ações do Unabomber, mas muitos entenderam o senso de desespero e desamparo que o conduziu. Qual tem sido sua impressão dos sentimentos populares em relação ao Unabomber? Quais reservas, se alguma, tem a maioria de seus colaboradores ? R: A imprensa cobrindo o caso, especialmente as experiências jurídicas penosas, nunca pareceram tão ansiosas ou satisfeitas em suas reportagens. Eles nunca questionaram uma vez sequer a validade dos constantes escapes do advogado com respeito ao pensamento ilusório de Ted. A principal psiquiatra examinadora prontamente admitiu a Bill Finnegan que ela encontrou o delírio de Kaczynski precisamente na base de suas críticas do sistema tecnológico e seus efeitos sobre as pessoas! Uma descoberta política chocante, sem necessidade de dizer.É pouco surpreendente que o público negou qualquer pensamento independente sobre o tema, provavelmente não se tornou realmente simpáticos a ele. Outro fator é que seu advogado disse àqueles entre nós que queriam tentar organizar o entendimento e o apoio sobre o caso para desistir. Relutantemente, Ted continuou em frente com os conselhos de seus advogados, pessoa confiável que ele era. (Ele confiou neles e eles mentiram para ele, deixando-o despreparado até o tempo em que suas opções se esgotaram, eles estavam de fato fazendo exatamente o que eles disseram não fariam, nomeadamente o retratando como lunático. Tudo isso obviamente, funcionou contra qualquer leitura justa sobre o que ele defendia.
P: As proezas do Unabomber engendraram uma das mais profundas divisões na memória entre anarquistas, primitivistas, e variados eco-radicais. Seus pensamentos sobre a divisão e talvez meios de avançar além dela. R: Eu não tenho certeza se é uma divisão tão profunda porque eu tenho visto sinais de que ela já tenha se cicatrizado de algum modo. Por exemplo, existia a presença de uma voz pró-Ted no encontro nacional anual do movimento Earth First* em Round River Rendezvous. E o mais recente Live Wild or Die (#7) se identificou ativamente com sua causa e sua defesa. Em todo lugar tem havido ressonância entre alguns garotos; eu vejo isso como algo que tem crescido. Eu acho que existe menos antipatia em relação a ele, menos medo de ser identificado com o que o Unabomber representa. Com certeza, a maior razão para a que a divisão fosse reduzida – se é que foi - é que o meio social anarquista parece estar mais estavelmente anti-tecnologico e primitivista, especialmente entre o pessoal mais jovem. * Earth First! - Grupo de "ecologia profunda" que luta contra os impactos ambientais da sociedade capitalistas. Há muitos grupos do Earth First ao redor do mundo e em diversas cidades do EUA.
P: Apesar da atual indiferença por muitos anarquistas ao esquerdismo, a crítica do Unabomber ao esquerdismo é mais severa que qualquer outra coisa que eu já vi escrita por anarquistas. Você acha que os anarquistas ainda possuem as capacidades para continuarem a rejeitar todas as formas de autoritarismo mascarado como oposição? R: O esquerdismo – significando uma orientação trabalhistíca, producionista, e a mentalidade “organizada” — está em declínio em todo lugar. O fracasso dos movimentos Class War in England (Guerra de Classe na Inglaterra) em 97 e o Love & Rage (Amor e Ódio)* aqui nos EUA em 98 são claramente sinais disso. O esquerdismo está indo no caminho do “dodô” (pássaro extinto, que era incapaz de voar), entretanto ainda existem alguns remanescentes por ai. A editora AK Press é um exemplo, com seu hábito desagradável por relíquias atrapalhadas como Bookchin e Chomsky. * A Federação Revolucionária Anarquista Amor e Ódio (Love and Rage), foi uma rede anarquista que era ativa nos EUA, durante a década de 90. Devido à pontos de vista divergentes, em 1998 a Federação formalmente se dissolveu. * Federação Guerra de Classe – organização que possui suas origens na Escócia e posteriormente se dissemina e expande-se na Inglaterra após o congresso nacional organizado em Manchester, 1986, baseava-se em um política classista e combativa para determinação de seus atos. Famosa por sua crítica anti-pacifista, dissolve-se em 1997, devido a rachas internos.
P: O livro Sociedade Industrial e o seu Futuro, tomou uma abordagem mais explicitamente psicológica (ex. a discussão da atividade substituta, os efeitos da superlotação, realização individual, etc.) do que é comumente vista na literatura que se opõe à dominação tecnológica. Você sente que o Unabomber estava enfatizando uma abordagem muito necessária, porém não notada, por aqueles de nós que questionam a tecnologia e suas conseqüências? R: Sim, o livro Sociedade Industrial e o seu Futuro é, eu diria, essencialmente psicológico. Ele enfoca-se no que inevitavelmente está acontecendo ao indivíduo enquanto a tecnologia mantiver sua influência. Este é seu apelo e sua importância, a razão de porque é uma leitura irresistível. Eu acho que seu tipo de abordagem tem sido enormemente despercebida na literatura anti-autoritária, porém é consoante com o que as pessoas estão interessadas. Portanto, apesar de estar sendo uniformemente sucateada, ela ainda consegue se manter, incluindo suas múltiplas traduções ao redor do mundo.
P: Quais efeitos sociais você viu originando-se de todo o caso Unabomber, se é que houve algum? R: Eu acho que os “efeitos sociais” do caso Unabomber não podem ser vistos isoladamente. Em outras palavras, o Unabomber é só uma parte de um fenômeno maior, a consciência emergente do destino que o sistema tecnológico possui armazenado para nós e o planeta. Este caso espetacular deu abertura vital a assuntos básicos, os quais já estavam começando a destacar-se.
P: Finalmente, seus pensamentos sobre como sairmos de onde estamos agora para chegarmos a um mundo melhor. R: O agravamento da situação para a biosfera, a sociedade, e o indivíduo – a crise em todos os níveis – é o mais forte ímpeto para o repensar de tantas velhas suposições triviais e instituições. Divisão do trabalho, domesticação, até mesmo os componentes de nossa cultura simbólica e a própria civilização – tudo isso agora encontra-se com pontos de interrogação. Quando a negação começar a desabar, nós bem que poderemos ver um desafio à ordem existente que fará o movimento dos anos 60 parecer muito superficial e sem graça.
Tradução: LukatiColetivo Erva daninha.
www.ervadaninha.blogger.com.br
ervadaninha@riseup.net
Q: O ambientalismo tem sido sempre um assunto um tanto depressivo para mim. Em contraste, o primitivismo sempre me pareceu confiante em sua luta para reconciliar as tensões entre humanos e o mundo natural. Ao invés de estar em oposição com a natureza, nos procuramos realizar nossos desejos de maneira, que o nosso mundo de televisões e shoppings nunca podem preencher. Quais comparações você faria entre o ambientalismo tradicional e o primitivismo?A: Eu gosto da distinção que você faz aqui, e que me parece frutífera. Para mim o primitivismo fornece um respaldo para o ambientalismo. Refere-se, como um princípio ou uma inspiração, para os dois milhões de anos durante os quais o ser humano viveu em harmonia com o meio ambiente, e não como um poder externo exercido sobre ela. O ambientalismo muitas vezes permanece com a perspectiva reformista de relevar somente alguns assuntos que são pertinentes. A percepção duma história de longa duração dos problemas ajuda, visto que, a observação das origens da degradação e da natureza bem como todas as suas facetas estão conectadas .
Q: Embora você tenha criticado tais fundamentos da civilização como a arte, linguagem, e número, você até agora absteve-se de uma crítica ao uso de ferramentas. Isto é interessante, pois a maioria das pessoas enxergaria o uso de ferramentas como um percussor direto da nossa sociedade tecnológica. Em que momento você veria o uso das ferramentas culminando em atividade alienada?A: A constatação é muitas vezes feita de maneira que haja uma suave mudança gradual entre o uso de simples instrumentos e o mundo atual de alta-tecnologia, de que não há distinção qualitativa que possa ser feita em qualquer momento ao longo dessa linha de desenvolvimento, sem um lugar para “desenhar uma linha” separando o positivo do negativo. Mas minha hipótese sobre o trabalho é a que a divisão do processo produtivo marca o momento dessa separação, com conseqüências terríveis que desdobram-se de maneira acelerada ou cumulativa. A especialização divide e estreita o individuo, instaura a hierarquia, e cria a dependência e trabalha contra a autonomia. Especialização que também impulsiona o industrialismo e desde já conduz diretamente para a crise ecológica. Ferramentas ou papéis que envolvem a divisão do trabalho engendram pessoas divididas e dividem a sociedade.
Q: Que exemplos o passado oferece a nós, pessoas que renunciaram um dado nível de tecnologia em favor de um estilo de vida mais holístico e natural?A: Um exemplo Norte Americano de pessoas que renunciaram a uma existência tecnicista e domesticada, é a do colonizador que, “partiu para Croatan.” ( Referencia aos colonizadores que habitaram a primeira colônia Inglesa em Roanoke, que à abandonaram para viver com uma tribo indígena local. Eles deixaram a inscrição “fomos para Croatan,” referindo-se à tribo – J.F) Evidentemente muito poucos Europeus abandonaram os postos avançados civilizados nos séculos 17 e 18 e se uniram as diversas comunidades Nativo Americanas.
Q: Seus escritos parecem sugerir uma Era Dourada para humanidade durante muito ou todo o período Paleolítico. Ainda assim, eu não sinto que suas idéias são contingentes sobre a idéia de um Éden no passado, no mais literal e extremo sentido. A vida um dia pode ter sido muito mais imediata e satisfatória, mas devem ter existido algumas falhas em algum momento para nos trazer ao presente. Eu estou curioso sobre em que grau você se sente anexado à idéia de uma utopia passada (a qual é claramente impossível de provar completamente), como sendo oposta à aplicação de conceitos úteis do passado sobre a base de valores presentes.A: Eu penso que você esteja certo ao sugerir que nos devíamos evitar a idealização da pré-história, de recusar sugeri-la como um estado de perfeição. De outro ponto de vista, a vida de caçador-coletor parece ter sido marcada, em geral, pela mais longa e mais bem sucedida adaptação à natureza jamais alcançada pelos seres humanos, um alto grau de semelhança entre gênero, a abstenção da violência organizada, tempo livre significante, direitos iguais na divisão dos princípios, e uma saúde livre de doenças. Desta maneira me parece instrutivo e inspirador, mesmo se imperfeito e talvez nunca totalmente conhecido para nós.
Q: Umas das questões mais frequentemente perguntadas em relação ao primitivismo, é se seus adeptos procuram um retorno literal para os estilos de vida primitivos, ou se simplesmente estão escavando o passado a procura de conceitos úteis. A: ( Panfleto anarquista de Detroit) Quinto Estado, em sua crítica parcial a civilização, tem longamente insistido que um retorno a um estado de não-civilização não é o que eles vêem como algo que seja possível ou desejável. Eu não estou convencido de que um “retorno” real deva ser descartado. Se não um retorno literal, então o que? Isto é, eu vejo isso como uma questão aberta.
Q: Bem, vamos assumir por agora que um retorno literal a um estado primitivo é desejável. Seus escritos foram até o momento uma crítica a arte, números, até mesmo a linguagem. Como você visualizaria um mundo, digamos, sem linguagem?A: Pensar em um mundo sem linguagem requer um enorme salto especulativo. De onde estamos agora é extremamente difícil sugerir princípios ou descobrir o significado da vida em um mundo baseada na comunicação não-simbólica, entretanto é claro que alguma dessa forma de comunicação existe mesmo agora. Freud achou que algum tipo de telepatia possuía forte influência antes da linguagem; amantes não precisam de palavras, como diz o ditado. Essas são dicas na direção da comunicação não mediada. Eu tenho certeza que você pode pensar em outros exemplos!
Q: Inúmeros críticos têm questionado que sua rejeição a cultura simbólica deixa o radical em potencial sem bases para desafiar a ordem existente.A: Minha sugestão de posicionamento é a que somente a rejeição da cultura simbólica provém um desafio suficientemente profundo ao que é a parte central daquela cultura. Eu posso estar errado, mas até agora eu não tenho visto argumentos persuasivos para abandonar esse ponto de vista. E mesmo se acontecer de ser um direção errada talvez o debate será frutífero em possibilidades não planejadas.
Q: Qual é sua resposta as pessoas que afirmam que o caminho da progressão tecnológica é irreversível?A: É bem possível que seja irreversível, mas a única maneira de saber é desafiando-o.Se alguém conclui que o caminho do tecno-progresso está provando ser desastroso, então esse alguém é obrigado a pará-lo, a revertê-lo. Isso é uma questão de moralidade básica, é o que me parece.
Q: Eu acho que é interessante notar o quão pouco genuína e construtiva é a crítica direcionada a tecnologia, talvez criando a idéia de que seja uma auto-realização irreversível. Em todo lugar alguém pode encontrar críticas de quase qualquer aspecto da sociedade tecnológica, mas raramente alguma que englobe o todo. A: Como muito se opõem a crítica do todo! Por exemplo, um dos princípios cardeais do ethos pós-moderno reinante é a rejeição da totalidade, rejeição da idéia exata de que podemos compreender o todo. E em geral o sistema nunca recompensou exatamente tais oposições, contra o pensamento geral. A cultura da negação é muito forte – pense em quanto o discurso político domintante é pouco questionado. É muito difícil ser publicado, muito difícil quebrar o monopólio da ignorância imposta. E, contudo a realidade, creio eu, está começando a forçar uma abertura. Nós ouvimos algumas, não muitas, mas algumas vozes que confrontam o quadro geral, seu caráter fundamental.
Q: Sua resposta à afirmação habitual de que a tecnologia é neutra.A: A Tecnologia nunca foi neutra, como uma ferramenta discreta desassociada de seu contexto. Tem sempre participado e expressa os valores básicos do sistema social no qual está embutida. A Tecnologia é a linguagem, a textura, a personificação dos arranjos sociais que ela mantém unida. A idéia de que seja neutra, de que é separável da sociedade, é uma das maiores mentiras existentes. É óbvio porque aqueles que defendem a armadilha mortal high-tech, querem que nós acreditemos que a tecnologia é de alguma maneira neutra.
Q: Não deve o abandono gradual da tecnologia ocorrer em uma base mundial, evitando que nos tornemos vulneráveis àqueles que não deixarão cair as rédeas?A: Sim, realmente parece necessário que o movimento anti-tecnológico torne-se global o mais rapidamente possível, para que consiga obter sucesso. O sistema de tecnologia e capital é global e altamente interdependente, e é somente tão forte quanto sua ligação mais fraca. A esse fato deve ser adicionado o desencanto disseminado com a “promessa” da tecnologia. Os dois são, ou serão, uma potente combinação para o nosso lado.
Q: Você acha que a maioria da população é mais desconfiada em relação à tecnologia do que a nossa dita elite política?A: Todo mundo hoje é bem saturado pela mídia e suas constantes mensagens pró-tecnologia em todos os níveis. Mas aqueles que o manifesto Unabomber* chamam de “excessivamente-socializados” são talvez mais aptos a serem uma elite política de classe média e por essa razão são provavelmente menos desconfiados da canção da sirene tecnológica. * O manifesto do Unabomber veio a público em 19 de setembro de 1995, publicado no jornal Washington Post. Uma crítica a sociedade tecnológica e capitalista, supostamente escrita por Ted. Kaczynski que antes de ser preso, em 1996, enviou - ao longo de 18 anos - 16 bombas pelo correio americano, que deixaram três mortos e 23 feridos.
P: Algum pensador(s) ou teorista(s) que você gostaria de levar à prova por uma falta de entendimento sobre os assuntos relevantes à tecnologia?R: Ainda existem muitos teoristas que parecem pouco entender a questão da tecnologia. Muitos senão todos pensadores pós-modernos evitam o assunto pela simples razão de que eles não contestam nada, rejeitando a própria idéia de um pensamento opositor. Aceitando tudo em sua maneira cínica e relativista, eles (ex. Baudrillard) certamente não enfrentam a tecnologia ou resistem a ela. Por outro lado, por exemplo, eu recomendo a Tecnologia de Lorenzo Simpson, “Tempo e as Conversações da Modernidade”, no qual demonstra como a tecnologia — com sua contrapartida intelectual, pós-modernista — esvazia a existência social e cria um clima ausente de sentido.
P: Tem havido surpreendentemente pouca oposição à instalação de câmeras de vigilância por todas cidades nos EUA. O que você pensa poder ser a implementação de uma tecnologia a qual pode finalmente provocar uma grave reação? A clonagem de um ser humano? Um computador implantado no cérebro?R: Muito consentimento a respeito de câmeras de vigilância fora dos interesses pessoais de segurança, aparentemente. Mas sim, uma pessoa pensaria que a clonagem humana ou cérebros biônicos poderiam horrorizar a maioria das pessoas. Ludditas* como eu esperam que as novas alturas invasoras de uma tecnologia sempre-colonizadora irão levar as pessoas a questionar toda sua trajetória e lógica. Como Paul Shepard disse sobre o gosto pela cultivo da terra de Gary Snyder, ele esquece que mesmo a horticultura muito simples é nada mais que o primeiro passo na estrada para a engenharia genética. É tudo uma questão de domesticação, em outras palavras. Participar e controlar ou dar nova forma a natureza, é comprometer-se com uma orientação que nos leva em direção a clonagem humana e todo resto.
P: De quais grupos você encontrou um apoio inesperado para uma visão mundial que questione o valor da tecnologia? R: Um amigo Latino meu, recentemente disse que ele achava que poucas pessoas do terceiro mundo estão agora ansiando pela tecnologia do primeiro mundo. Na medida que isto é verdade, isso demonstraria uma mudança de grande importância. Eu também noto alguns jovens vendo através dos atrativos da tecnologia. Isto é menos surpreendente, eu imagino, e eu não sei quantos garotos estão abertos a maneira de enxergar do “primitivismo”, mas isso é um desenvolvimento vital que está se espalhando, pelo menos em algum grau.
P: Quando foi a primeira vez que você enxergou através dos “atrativos da tecnologia?” Você sempre se sentiu em oposição a ela em algum nível? Existiu algum evento ou campo de estudo que primeiro provocou você a desenvolver semelhante crítica abrangendo tudo?R: Nos anos setenta lentamente começou a nascer em mim, que o conceito de “revolução,” entre outros, era de alguma maneira muito inadequado. Isto me atormentou durante um período quando eu estava fazendo meu trabalho de graduação sobre história social e trabalhista. O primeiro “avanço” importante para mim foi em termos da Revolução Industrial na Inglaterra. Especialmente, tornou-se claro que o sistema de fábricas foi introduzido em grande parte como uma maneira de controle social. Os artesões dispersados foram destituídos de sua autonomia e levados juntos para as fábricas para serem desqualificados e disciplinados. Isto mostra que a tecnologia não foi de forma alguma “neutra”. Esta descoberta me ajudou a começar a ver como a divisão do trabalho é basicamente uma subtração de poder e alienadora. Qualquer pessoa precisa olhar a tecnologia como um sistema que contêm os valores profundos da ordem social que a personifica. Nunca é uma simples questão de “ferramentas” ou dispositivos.
P: Quais são alguns dos seus próximos projetos que nos podemos esperar com entusiasmo?R: Estou trabalhando em um ensaio sobre niilismo, e tentando publicar alguns livros também. Tem que haver mais trabalhos anti-tecnológicos, e mesmo anti-civilização disponíveis ao público. Mesmo as maiorias do editores anarquistas, como a AK e a Autonomedia, não compreenderam a importância do projeto, ou o interesse em semelhante pensamento.
P: Eu gostaria de lhe perguntar mais algumas questões a respeito do Unabomber. Quando a “Sociedade Industrial e o seu Futuro*” foi pela primeira vez disponibilizado, você foi reconhecido antecipadamente como uma possível influência dos pontos de vista de FC. Você tem algum comentário sobre o tratado do Unabomber?R: Eu considero o texto Sociedade Industrial e seu Futuro um texto extremamente importante. Basicamente, ele mostra como a sociedade tecnológica torna impossível alcançar tanto a liberdade como a satisfação. De maneira muito clara, a prosa acessível explica o caminho sem saída que é o industrialismo. Jacques Ellul é claramente uma grande influência, mas eu não tenho nenhum conhecimento de qualquer influência americana contemporânea, anarquista ou de outro aspecto.*No ano de 1995 veio a público o ensaio de "A sociedade industrial e o seu futuro", no qual Kaczynski danava a moderna tecnologia em bloco. A frase inicial já dizia tudo: "A Revolução Industrial e suas conseqüências foram um desastre para a raça humana".
P: Em geral, qual é sua opinião sobre os métodos do Unabomber?R: Os métodos do Unabomber foram o resultado da frustração. Evidentemente, ele não podia encontrar outros que desejavam confrontar a loucura tecnológica, nem podia ele encontrar um editor para Sociedade Industrial e o seu Futuro, apesar de se esforçar por anos em ambas as frentes.
P: Tendo seus próprios pontos de vistas ligados a alguém que é o tema de uma investigação massiva não é necessariamente uma posição invejável. Ocorreram qualquer incidentes fora do comum antes da prisão de Ted Kaczynsky?R: No verão de 95, isso é, no ano antes da sua prisão, minha casa foi invadida. A coisa estranha sobre isto, foi o fato que minha agenda de endereços e alguns tênis esportivos foram levados, enquanto que algumas coisas portáveis e visíveis de algum valor foram deixadas intocadas. Também naquele verão, algumas cartas minhas foram interceptadas em algum lugar ao longo da linha. Em pelo menos três casos que eu verifiquei, cartas foram enviadas mas nunca chegaram ao seu destino.
P: Você se encontrou com Ted Kaczynski em diversas ocasiões, e continua a manter contato com ele. Qual é sua impressão sobre ele em um nível pessoal?R: Em minhas visitas com Ted, eu o achei educado, amigável, muito firme, e possuindo um senso de humor. Ele certamente não deu quaisquer ares de superioridade e me pareceu uma pessoa bastante paciente e auto-disciplinada. O advogado Tony Serra e eu concordamos: Ted não é louco.
P: Existiram quaisquer irregularidades no julgamento dele que você gostaria de chamar a atenção?R: Não existiu julgamento. Ele foi coagido a aceitar um acordo de súplica ( por prisão perpétua) depois que o juiz negou tanto sua tentativa de despedir e substituir seus advogados de defesa e sua tentativa de defesa própria. Ele foi deixado sem nenhuma outra alternativa senão a do argumento de insanidade que ele sempre rejeitou. O que fica visível é o fato de que o conjunto de instituições legais e políticas mantiveram-se unidas em sua recusa à permitir que ele fosse julgado em um tribunal e apresentasse suas idéias. O sistema demonstrou isso deixando claro que a pena de morte foi uma prioridade menor do que negar o direito de Ted de ser escutado. Um tratamento muito bom é o de Bill Finnegan* em “Defendendo o Unabomber” escrito no New Yorker em 16 de março, 1998 . Finnegan traz à tona os pontos acima persuasivamente, e é o único escritor a ter feito isso. * Bill Finnegan, Jornalista que publicou artigos sobre o Unabomber no Jornal New Yorker.
P: Se eu tivesse que advinhar, eu diria que muito poucas pessoas apoiaram as ações do Unabomber, mas muitos entenderam o senso de desespero e desamparo que o conduziu. Qual tem sido sua impressão dos sentimentos populares em relação ao Unabomber? Quais reservas, se alguma, tem a maioria de seus colaboradores ? R: A imprensa cobrindo o caso, especialmente as experiências jurídicas penosas, nunca pareceram tão ansiosas ou satisfeitas em suas reportagens. Eles nunca questionaram uma vez sequer a validade dos constantes escapes do advogado com respeito ao pensamento ilusório de Ted. A principal psiquiatra examinadora prontamente admitiu a Bill Finnegan que ela encontrou o delírio de Kaczynski precisamente na base de suas críticas do sistema tecnológico e seus efeitos sobre as pessoas! Uma descoberta política chocante, sem necessidade de dizer.É pouco surpreendente que o público negou qualquer pensamento independente sobre o tema, provavelmente não se tornou realmente simpáticos a ele. Outro fator é que seu advogado disse àqueles entre nós que queriam tentar organizar o entendimento e o apoio sobre o caso para desistir. Relutantemente, Ted continuou em frente com os conselhos de seus advogados, pessoa confiável que ele era. (Ele confiou neles e eles mentiram para ele, deixando-o despreparado até o tempo em que suas opções se esgotaram, eles estavam de fato fazendo exatamente o que eles disseram não fariam, nomeadamente o retratando como lunático. Tudo isso obviamente, funcionou contra qualquer leitura justa sobre o que ele defendia.
P: As proezas do Unabomber engendraram uma das mais profundas divisões na memória entre anarquistas, primitivistas, e variados eco-radicais. Seus pensamentos sobre a divisão e talvez meios de avançar além dela. R: Eu não tenho certeza se é uma divisão tão profunda porque eu tenho visto sinais de que ela já tenha se cicatrizado de algum modo. Por exemplo, existia a presença de uma voz pró-Ted no encontro nacional anual do movimento Earth First* em Round River Rendezvous. E o mais recente Live Wild or Die (#7) se identificou ativamente com sua causa e sua defesa. Em todo lugar tem havido ressonância entre alguns garotos; eu vejo isso como algo que tem crescido. Eu acho que existe menos antipatia em relação a ele, menos medo de ser identificado com o que o Unabomber representa. Com certeza, a maior razão para a que a divisão fosse reduzida – se é que foi - é que o meio social anarquista parece estar mais estavelmente anti-tecnologico e primitivista, especialmente entre o pessoal mais jovem. * Earth First! - Grupo de "ecologia profunda" que luta contra os impactos ambientais da sociedade capitalistas. Há muitos grupos do Earth First ao redor do mundo e em diversas cidades do EUA.
P: Apesar da atual indiferença por muitos anarquistas ao esquerdismo, a crítica do Unabomber ao esquerdismo é mais severa que qualquer outra coisa que eu já vi escrita por anarquistas. Você acha que os anarquistas ainda possuem as capacidades para continuarem a rejeitar todas as formas de autoritarismo mascarado como oposição? R: O esquerdismo – significando uma orientação trabalhistíca, producionista, e a mentalidade “organizada” — está em declínio em todo lugar. O fracasso dos movimentos Class War in England (Guerra de Classe na Inglaterra) em 97 e o Love & Rage (Amor e Ódio)* aqui nos EUA em 98 são claramente sinais disso. O esquerdismo está indo no caminho do “dodô” (pássaro extinto, que era incapaz de voar), entretanto ainda existem alguns remanescentes por ai. A editora AK Press é um exemplo, com seu hábito desagradável por relíquias atrapalhadas como Bookchin e Chomsky. * A Federação Revolucionária Anarquista Amor e Ódio (Love and Rage), foi uma rede anarquista que era ativa nos EUA, durante a década de 90. Devido à pontos de vista divergentes, em 1998 a Federação formalmente se dissolveu. * Federação Guerra de Classe – organização que possui suas origens na Escócia e posteriormente se dissemina e expande-se na Inglaterra após o congresso nacional organizado em Manchester, 1986, baseava-se em um política classista e combativa para determinação de seus atos. Famosa por sua crítica anti-pacifista, dissolve-se em 1997, devido a rachas internos.
P: O livro Sociedade Industrial e o seu Futuro, tomou uma abordagem mais explicitamente psicológica (ex. a discussão da atividade substituta, os efeitos da superlotação, realização individual, etc.) do que é comumente vista na literatura que se opõe à dominação tecnológica. Você sente que o Unabomber estava enfatizando uma abordagem muito necessária, porém não notada, por aqueles de nós que questionam a tecnologia e suas conseqüências? R: Sim, o livro Sociedade Industrial e o seu Futuro é, eu diria, essencialmente psicológico. Ele enfoca-se no que inevitavelmente está acontecendo ao indivíduo enquanto a tecnologia mantiver sua influência. Este é seu apelo e sua importância, a razão de porque é uma leitura irresistível. Eu acho que seu tipo de abordagem tem sido enormemente despercebida na literatura anti-autoritária, porém é consoante com o que as pessoas estão interessadas. Portanto, apesar de estar sendo uniformemente sucateada, ela ainda consegue se manter, incluindo suas múltiplas traduções ao redor do mundo.
P: Quais efeitos sociais você viu originando-se de todo o caso Unabomber, se é que houve algum? R: Eu acho que os “efeitos sociais” do caso Unabomber não podem ser vistos isoladamente. Em outras palavras, o Unabomber é só uma parte de um fenômeno maior, a consciência emergente do destino que o sistema tecnológico possui armazenado para nós e o planeta. Este caso espetacular deu abertura vital a assuntos básicos, os quais já estavam começando a destacar-se.
P: Finalmente, seus pensamentos sobre como sairmos de onde estamos agora para chegarmos a um mundo melhor. R: O agravamento da situação para a biosfera, a sociedade, e o indivíduo – a crise em todos os níveis – é o mais forte ímpeto para o repensar de tantas velhas suposições triviais e instituições. Divisão do trabalho, domesticação, até mesmo os componentes de nossa cultura simbólica e a própria civilização – tudo isso agora encontra-se com pontos de interrogação. Quando a negação começar a desabar, nós bem que poderemos ver um desafio à ordem existente que fará o movimento dos anos 60 parecer muito superficial e sem graça.
Tradução: LukatiColetivo Erva daninha.
www.ervadaninha.blogger.com.br
ervadaninha@riseup.net
sábado, 8 de novembro de 2008
O Poder da Educação
Não existe melhor exemplo para definir o comportamento da maioria do homens diante do mundo em que vivem, do mundo que experimentam todos os dias, do que o da criança: o homem é uma criança, cuja altura, força e todos os demais caracteres de um adulto, paradoxalmente se antagonizam ao pequeno tamanho do seu coração, de sua alma e de sua intensa fraqueza e fragilidade diante dos poderes que o superam e lhe impõe submissão. Nenhuma criança, por mais adulta que seja, terá por essa via condições de ser o super-herói do seu mundo, todavia, passará a vida inteira sonhando com um através de seus brinquedos: sua bola de futebol, sua boneca, sua pipa, seu revolucionário político, seu cantor favorito, seu ator ou atriz de tv, seu grande amor e etc. Mas essa criança cujos olhos e o sorriso demonstram uma esperança que nunca chega, cresce e toda criança que cresce brincando, permanece brincando a vida inteira.
A vida começa a conhecer o colapso quando o homem quer viver brincando nela, brincando de viver. A vida não é um brinquedo, tampouco uma brincadeira, sendo assim, as crianças sempre serão delas excluídas, princialmente as crianças de coração. Bem falou Jesus sobre as crianças quando disse que ... dos tais é o reino dos céus ( Lc. 18.16 ). No reino dos homens, adúltos, toda criança é excluída. Para toda criança de coração é necessário um coração maior, que se leve e cresça até se tornar uma alma maior que o mundo, e por ser maior não está sujeita a submissão e toda exclusão que o mundo lhe impõe, sendo forte o suficiente para reagir contra todos os poderes que impedem o homem de crescer. A educação é essa força que eleva o cooração e o torna forte contra toda a apatia, inércia e estagnação dos homens que não passam de crianças. A educação é uma força de reação contra a sociedade e os homens do presente, um presente que será sepultado pelo constante desenvolvimento social. O homem que não se educa para o futuro será sepultado com o mundo presente em que vive, pois nenhuma criança costuma saobreviver para o futuro.
Se educar é um ato de se ajustar ao futuro, muitos homens param por ai, como se o futuro já tivesse para eles chegado, conseguem se tornar adultos, todavia, envelhecem depressa e ficam caducos: o homem se torna um velho, atingindo maturidade sificiente, que apenas lhe resta o declínio, e quando isso acontece, ele já está preparado para tombar e cair, encontrando assim, o seu inevitável destino: a morte. Tanto a criança quanto o velho estão destinados a morrer, todavia, um morre por não ter um futuro e o outro, por acreditar que já o alcançou: o futuro não chega nunca , por isso ele é agora mesmo. Fazer do futuro hoje é o objetivo da educação, fazendo com que o homem esteja à frente do seu tempo no seu tempo. Nascemos crianças, e o mundo, impondo-se muitas vezes contra a nossa própria existência, nos impede de cresce nos forçando a sermos crianças a vida inteira até a morte. Uma reação é portanto uma necessidade para todo aquele que ousa com o seu pequeno coração alcançar o seu futuro.
Entretanto tudo é uma questão de intensidade, de paixão, pela qual o coração se dispõe a lutar contra tudo aquilo que o diminui: o mundo é um campo de batalha e não devemos nos esquecer disso; a questão é : até onde eu quero chegar ? Existe algum limite para minha paixão? Sou eu quem move o mundo ou é o mundo que me move?
sábado, 18 de outubro de 2008
Curso Sobre Existencialismo Cristão
O existencialismo emerge na contemporaneidade como um testemunho autobiográfico de nossa geração sobre sua desesperada e permanente crise de identidade. Sendo assim, nasce sempre de uma profunda experiência de tensão vivida por seus mentores intelectuais, seja na coletividade ou experimentada solitariamente no íntimo. O existencialismo nada mais significa do que uma maneira formal, crítica e até poética e romanceada onde o existente fala pelo mundo em crise: é portanto um grito por socorro onde convergem a descrição de um intenso estado de miséria e a esperança em transcendê-lo, correspondendo por isso, ao discurso cristão e valor escatológico dos evangelhos: onde a ressurreição vence a cruz, a vida vence a morte, onde nasce um novo começo depois do fim e etc. Não é sem razão que sob tais circunstâncias o existencialismo nasça como uma reflexão crítica, teológica e cristã, sobre um mundo onde os paradigmas fornecidos pelo secularismo entram em colapso. É exatamente sobre essa falência do secularismo, que o existencialismo, o especificadamente cristão, reage.
E para tanto, promove através de seus grandes nomes, uma releitura de toda a tradição cristã e seu legado crítico para a atualidade. O curso tem como objetivo expor de uma maneira breve e suscinta todo o processo de formação histórica, ideológica e metodológica que norteia as filosofias da existência, particularmente as cristãs: dentre elas o pensamento de Kierkegaard, Karl Jaspers e Gabriel Macel, seu impacto na reflexão teológica e seu debate com a contemporaneidade.
Informações :
diogocsantana@bol.com.br
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Declaração Teológica de Barmen
Tese I – Jesus Cristo, tal qual é testemunhado nas Sagradas Escrituras, é a única Palavra de Deus – a qual devemos ouvir e nela confiar e a ela obedecer tanto na vida como na morte.
Tese II – Assim como Jesus Cristo é a garantia de Deus para o perdão de todos os nossos pecados, do mesmo modo e com a mesma seriedade ele também é a reivindicação mais poderosa de Deus sobre toda nossa vida; por intermédio dele experimentamos uma libertação feliz das amarras ímpias deste mundo, para que possamos prestar um serviço livre e agradecido às suas criaturas.
Tese III – A Igreja cristã é a comunhão dos irmãos, na qual Jesus Cristo, em Palavra e sacramentos, através do Espírito Santo, age de uma maneira presente como Senhor. Na condição de Igreja de pecadores agraciados, ela tem a tarefa de testemunhar em meio a um mundo pecador, tanto com sua fé como com sua obediência, tanto com sua mensagem como com sua ordem, que ela é somente propriedade do Senhor, que vive e pretende viver somente de seu conforto e a partir de sua orientação na expectativa de sua volta.
Tese IV – Os diversos ofícios existentes na Igreja não estabelecem o domínio de uns sobre os outros, porém fundamentam o exercício do ministério confiado e destinado a toda a comunidade.
Tese V – As Sagradas Escrituras testemunham que o Estado, por ordem divina, tem a tarefa de, neste mundo ainda não redimido, no qual também se encontra a Igreja, providenciar a justiça e a paz. O Estado estará se desincumbindo da tarefa e para a tal poderá fazer ameaças e o uso da força de acordo com o bom senso e a capacidade humana. A Igreja reconhece o benefício dessa ordem divina com gratidão e reverência a Deus. Ela evoca o Reino de Deus, os mandamentos e a justiça de Deus, proclamando assim a responsabilidade de regente e regidos. Ela confia e obedece ao poder da Palavra, mediante a qual Deus sustenta todas as coisas.
Tese VI – A tarefa da Igreja, sobre a qual se fundamenta a sua liberdade, consiste em pregar a todos os povos a mensagem da graça libertadora de Deus em Cristo, e por essa razão está a serviço de sua Palavra e obra, mediante a pregação e sacramentos.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Declara%C3%A7%C3%A3o_Teol%C3%B3gica_de_Barmen
Tese II – Assim como Jesus Cristo é a garantia de Deus para o perdão de todos os nossos pecados, do mesmo modo e com a mesma seriedade ele também é a reivindicação mais poderosa de Deus sobre toda nossa vida; por intermédio dele experimentamos uma libertação feliz das amarras ímpias deste mundo, para que possamos prestar um serviço livre e agradecido às suas criaturas.
Tese III – A Igreja cristã é a comunhão dos irmãos, na qual Jesus Cristo, em Palavra e sacramentos, através do Espírito Santo, age de uma maneira presente como Senhor. Na condição de Igreja de pecadores agraciados, ela tem a tarefa de testemunhar em meio a um mundo pecador, tanto com sua fé como com sua obediência, tanto com sua mensagem como com sua ordem, que ela é somente propriedade do Senhor, que vive e pretende viver somente de seu conforto e a partir de sua orientação na expectativa de sua volta.
Tese IV – Os diversos ofícios existentes na Igreja não estabelecem o domínio de uns sobre os outros, porém fundamentam o exercício do ministério confiado e destinado a toda a comunidade.
Tese V – As Sagradas Escrituras testemunham que o Estado, por ordem divina, tem a tarefa de, neste mundo ainda não redimido, no qual também se encontra a Igreja, providenciar a justiça e a paz. O Estado estará se desincumbindo da tarefa e para a tal poderá fazer ameaças e o uso da força de acordo com o bom senso e a capacidade humana. A Igreja reconhece o benefício dessa ordem divina com gratidão e reverência a Deus. Ela evoca o Reino de Deus, os mandamentos e a justiça de Deus, proclamando assim a responsabilidade de regente e regidos. Ela confia e obedece ao poder da Palavra, mediante a qual Deus sustenta todas as coisas.
Tese VI – A tarefa da Igreja, sobre a qual se fundamenta a sua liberdade, consiste em pregar a todos os povos a mensagem da graça libertadora de Deus em Cristo, e por essa razão está a serviço de sua Palavra e obra, mediante a pregação e sacramentos.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Declara%C3%A7%C3%A3o_Teol%C3%B3gica_de_Barmen
Como Cristo Julga o Cristianismo Oficial - em espanhol
KIERKEGAARD INEDITO
El último año de vida de Søren Kierkegaard, 1855, estuvo signado por su decisión de salir a combatir públicamente contra la cristiandad, encarnada por el establishment oficial de la iglesia y el rebaño de los que él llamaba cristianos domingueros. La singularidad del combate kierkegaardiano radica en que, a diferencia de otras duras críticas a la cristiandad que podemos denominar iluministas (contándose las de Marx y Nietzche entre las más célebres), el pensador danés habla desde el interior de la iglesia militante, contra la iglesia establecida. Toda la obra de Kierkegaard fue encaminándose indefectiblemente hacia el momento en que tuvo que denunciar el escándalo que significa que quienes se dicen seguidores de Cristo sean los que más hacen por que su doctrina quede sepultada debajo de una criminal hipocresía.
Se cuenta que todos los domingos, durante sus últimos meses de vida, Kierkegaard se paraba frente a la iglesia a leer en voz alta las flamígeras palabras publicadas en su revista El Instante (nueve ediciones entre mayo y septiembre de 1855, más un décimo número que no llegó a imprimirse, a causa de su repentina muerte): "La blasfemia más tremenda es la acometida por la 'cristiandad': transformar al Dios del espíritu en un disparate irrisorio; y el culto menos espiritual, menos espiritual que todo lo que hay y que jamás hubo en el paganismo, menos espiritual que adorar como dios a una piedra, un buey, un insecto, menos espiritual que cualquier otra cosa, es: adorar bajo el nombre de Dios a ¡semejante necedad!" (El Instante Nº 2, 4 de junio de 1855, Copenhague).
El que sigue es un texto de junio de 1855 publicado entre el 2º y el 3º número de El Instante, que se presenta por primera vez en lengua castellana en una traducción realizada por un equipo de traducción que se reúne semanalmente en la Iglesia Dinamarquesa en Buenos Aires, y que integran el pastor Andrés Roberto Albertsen, María José Binetti, el profesor Oscar Alberto Cuervo, la licenciada Patricia Dip, el licenciado Héctor Fenoglio, y Pedro Gorsd.
Cómo juzga Cristo el cristianismo oficial
Junio de 1855
Podría parecer extraño que sólo ahora avance sobre esto, pues el juicio de Cristo debería ser decisivo, no importa lo inoportuno que resulte para el gremio de los estafadores clericales que se han apoderado de la firma "Jesucristo" y bajo el nombre de cristianismo han hecho negocios brillantes.
El último año de vida de Søren Kierkegaard, 1855, estuvo signado por su decisión de salir a combatir públicamente contra la cristiandad, encarnada por el establishment oficial de la iglesia y el rebaño de los que él llamaba cristianos domingueros. La singularidad del combate kierkegaardiano radica en que, a diferencia de otras duras críticas a la cristiandad que podemos denominar iluministas (contándose las de Marx y Nietzche entre las más célebres), el pensador danés habla desde el interior de la iglesia militante, contra la iglesia establecida. Toda la obra de Kierkegaard fue encaminándose indefectiblemente hacia el momento en que tuvo que denunciar el escándalo que significa que quienes se dicen seguidores de Cristo sean los que más hacen por que su doctrina quede sepultada debajo de una criminal hipocresía.
Se cuenta que todos los domingos, durante sus últimos meses de vida, Kierkegaard se paraba frente a la iglesia a leer en voz alta las flamígeras palabras publicadas en su revista El Instante (nueve ediciones entre mayo y septiembre de 1855, más un décimo número que no llegó a imprimirse, a causa de su repentina muerte): "La blasfemia más tremenda es la acometida por la 'cristiandad': transformar al Dios del espíritu en un disparate irrisorio; y el culto menos espiritual, menos espiritual que todo lo que hay y que jamás hubo en el paganismo, menos espiritual que adorar como dios a una piedra, un buey, un insecto, menos espiritual que cualquier otra cosa, es: adorar bajo el nombre de Dios a ¡semejante necedad!" (El Instante Nº 2, 4 de junio de 1855, Copenhague).
El que sigue es un texto de junio de 1855 publicado entre el 2º y el 3º número de El Instante, que se presenta por primera vez en lengua castellana en una traducción realizada por un equipo de traducción que se reúne semanalmente en la Iglesia Dinamarquesa en Buenos Aires, y que integran el pastor Andrés Roberto Albertsen, María José Binetti, el profesor Oscar Alberto Cuervo, la licenciada Patricia Dip, el licenciado Héctor Fenoglio, y Pedro Gorsd.
Cómo juzga Cristo el cristianismo oficial
Junio de 1855
Podría parecer extraño que sólo ahora avance sobre esto, pues el juicio de Cristo debería ser decisivo, no importa lo inoportuno que resulte para el gremio de los estafadores clericales que se han apoderado de la firma "Jesucristo" y bajo el nombre de cristianismo han hecho negocios brillantes.
Sin embargo, no es sin razón que sólo ahora me refiera a esta cuestión decisiva; y a quien haya seguido con atención toda mi obra de escritor, de ninguna manera le habrá pasado desapercibido que hay un cierto método en el modo como procedo, que se caracteriza tanto por lo que digo, que todo esto de la "cristiandad" es un asunto criminal, equivalente a lo que suele llamarse con el nombre de falsedad, estafa, sólo que aquí es la religión que se usa así, como por el hecho de que realmente soy, como yo mismo lo digo, un talento policial.
Fíjate ahora si puedes seguir los pasos del caso. Yo empecé haciéndome pasar por poeta, apuntando maliciosamente a lo que pensaba en relación con el cristianismo oficial, que la diferencia entre el librepensador y el cristianismo oficial es que el librepensador es un hombre sincero, que sin vueltas enseña que el cristianismo es fábula, poesía; por el contrario, el cristianismo oficial es un falsificador, que solemnemente asegura que el cristianismo es otra cosa, solemnemente se empeña contra el librepensador, y así oculta que en realidad él convierte el cristianismo en poesía, suprime el seguimiento de Cristo, de manera que sólo por la imaginación nos relacionamos con el modelo, pero él mismo vive bajo determinaciones totalmente distintas, lo cual es relacionarse poeticamente con el cristianismo o transformarlo en poesía, no más comprometedor que lo que es la poesía; y por último, el resultado es que directamente se desecha el modelo y se deja que aquello que uno es, la mediocridad, pase a ser el ideal.
Bajo el título de poeta saqué a la luz algunos ideales; expuse aquello con que los 1000 funcionarios reales están comprometidos por juramento. Y estos buenos hombres no se dieron cuenta de nada, permanecieron totalmente tranquilos, hasta ese punto todo era, cristianamente, falto de espíritu y mundanidad; estos buenos hombres no tenían idea de que se ocultaba algo detrás de este poeta - que mi modo de proceder era el de la inteligencia policial, para que los implicados estuvieran tranquilos, y la policia tuviera ocasión de formarse una idea más profunda del caso.
Así pasó un tiempo. Incluso me llevaba bien con estos hombres sujetos a juramento - y logré, con toda tranquilidad, dos cosas: instalar los ideales y conocer a aquellos con los que me las tengo que ver.
Pero al último estos buenos hombres se impacientaron con este poeta; se les trasformó en un acoso. Esto sucedió con el artículo contra el obispo Martensen referido al obispo Mynster[1]. Totalmente tranquilos, sí, totalmente tranquilos como estaban hicieron hincapié ahora (como podrá recordarse de aquel tiempo), en que "la escala con que se los medía era demasiado grande", etc.
Entonces este poeta se transformó repentinamente - si me permiten la expresión, arrojó la guitarra, y tomó un libro que se llama "el Nuevo Testamento de nuestro Señor y Salvador Jesucristo" , y con -sí, con mirada policial- interpeló a estos buenos maestros sujetos a juramento, " testigos de la verdad" sobre lo siguiente: ¿acaso no es este el libro con el que están comprometidos por juramento, este libro cuya escala es bastante más grande que la usada por el poeta?
Desde ese instante, como se sabe, se hizo silencio. Tan listos como se creían, tan dispuestos a reclamar, mientras consideraran no sólo que quedaban a salvo, sino que podían hacerse los importantes sosteniendo: "no es más que un poeta, un exaltado con sus ideales, la escala es demasiado grande"; así de silenciosos se quedaron desde el instante en que este libro y el juramento entraron en juego. Tal como sucede en los procedimientos policiales. Primero se tranquiliza al implicado; y a propósito, si un agente policial posee todos los otros dones pero no es virtuoso en el arte de tranquilizar, no es un "verdadero talento policial". Una vez tranquilizado, el implicado invierte los roles: él, justamente él es el hombre honrado y claramente parece que fuera el agente policial quien es puesto en un brete. Pero cuando éste, tranquilizando de esta forma, se entera de lo que desea saber, cambia su modo de proceder, va directo al grano - y así de repente el implicado se queda en silencio, se muerde el labio y piensa: qué historia maldita.
Pues bien, tomé el Nuevo Testamento, me permití respetuosamente recordar que estos venerables testigos de la verdad por juramento están comprometidos con el Nuevo Testamento. Y entonces se hizo silencio. ¿No fue esto extraño?
Entretanto consideré que lo más correcto, en lo posible, era mantenerlos en la incertidumbre por un tiempo más acerca de lo bien informado que estoy, y hasta qué punto tengo al Nuevo Testamento de mi parte, lo que también estoy consiguiendo, pero por lo que no se me ocurriría jactarme.
Hablé entonces en mi propio nombre y cada vez más decisivamente, dado que veía que se seguía desdeñando la imputación por el hecho de que yo al principio presentara la situación de manera tan favorable para la parte contraria como me resultaba posible; y finalmente asumí decir en mi propio nombre que es una culpa, una gran culpa, participar del culto divino público, tal como es ahora. Fue en mi propio nombre; así quedó claro que ya no podrían librarse de mí con la excusa de que soy un poeta y que son los otros quienes representan la verdad. Pero siempre es un poco aliviante que hable en mi nombre; y así conseguí, por este efecto aliviante, tranquilizar un poco a la parte contraria y tener la oportunidad de conocerlos un poco mejor; saber si tenían la intención de empecinarse y no hacer caso de la imputación; pues la conciencia debe haber golpeado a estos hombres sujetos a juramento al escuchar esta palabra que todo lo cambia: es culpa, una gran culpa, participar del culto divino tal como es ahora; pues éste está en las antípodas de ser culto divino.
Pero, como fue dicho, lo aliviante era que hablaba en mi propio nombre. Pues aun cuando Dios sepa que he hablado verdaderamente y como debía hablar, y aun cuando lo que he dicho fuera verdadero y debiera decirse, incluso si no hubiera ninguna palabra de Cristo mismo, la cuestión es que siempre es bueno que por el Nuevo Testamento sepamos cómo Cristo juzga al cristianismo oficial.
Y lo sabemos por el Nuevo Testamento; su juicio se encuentra ahí - pero claro, estoy totalmente convencido de que, seas quien seas, si no conoces otra cosa acerca de lo que es el cristianismo que lo que surge del sermón dominical de los "testigos de la verdad", entonces año tras año puedes ir a tres iglesias cada domingo, escuchar -en términos generales- a cualquiera de los funcionarios reales, y nunca habrás escuchado las palabras de Cristo a las que estoy aludiendo. Los testigos de la verdad piensan presumiblemente así: así como el dicho dice "no se debe hablar de la soga en la casa del ahorcado", así también sería una locura que en las iglesias se citen aquellas palabras de la Palabra de Dios que testifican al cielo contra toda la payasada del pastor. Podría estar tentado de poner la siguiente exigencia que, aunque barata y modesta, es el único castigo que les deseo a los pastores: que se elijan determinados pasajes del Nuevo Testamento, y que el pastor se comprometa a leerlos en voz alta a la congregación. Naturalmente con la condición de que no sea como es uso y costumbre, que el pastor después de leer un pasaje así del Nuevo Testamento, deja a un lado el Nuevo Testamento para dar seguidamente su propia "interpretación" de lo leído. No, muchas gracias. No, lo que yo estaría tentado de proponer es el siguiente servicio divino: la congregación se reúne; se reza una oración en la puerta de la iglesia; se canta un himno; entonces el pastor sube al púlpito, toma el Nuevo Testamento, nombra el nombre de Dios y lee a la congregación el pasaje que corresponde en voz alta y clara - después deberá callarse y permanecer 5 minutos en silencio, quedándose en el púlpito, y sólo entonces podrá irse. Esto me parecería extremadamente provechoso. Intentar que el pastor se ponga colorado no se me ocurriría; pues a quien, con la conciencia de querer entender por cristianismo lo que él entiende por cristianismo, ha podido prestar juramento por el Nuevo Testamento sin ponerse colorado, a él no será fácil ponerlo colorado; y por otro lado se supone que para ser pastor oficial antes que nada es necesario que uno haya superado los infantilismos de la adolescencia y la inocencia, como ponerse colorado y cosas así. Pero supongo que la congregación sí se pondrá colorada por el pastor.
Y ahora a las palabras de Cristo a que me refiero.
Se encuentran en Mt 23, 29-33; Lc 11,47-48, y dicen así[2]:
Mt 23,29-33. 29) ¡Ay de ustedes, escribas y fariseos hipócritas, que construyen los sepulcros de los profetas y adornan las tumbas de los justos, 30) diciendo: "Si hubiéramos vivido en el tiempo de nuestros padres, no nos hubiéramos unido a ellos para derramar la sangre de los profetas"! 31) De esa manera atestiguan contra ustedes mismos que son hijos de los que mataron a los profetas. 32) ¡Colmen entonces la medida de sus padres! 33) ¡Serpientes, raza de víboras! ¿Cómo podrán escapar a la condenación de la Gehena?
Lc 11,47-48. 47) ¡Ay de ustedes, que construyen los sepulcros de los profetas, a quienes sus mismos padres han matado! 48) Así se convierten en testigos y aprueban los actos de sus padres: ellos los mataron y ustedes les construyen sepulcros.
¿Qué es, pues, la "cristiandad"? ¿No es la mayor tentativa posible encaminada a rendir culto a Dios construyendo los sepulcros de los profetas y adornando las tumbas de los justos y diciendo: "Si hubiéramos vivido en el tiempo de nuestros padres, no nos hubiéramos unido a ellos para derramar la sangre de los profetas", en lugar de seguir a Cristo, como él lo ha exigido y sufrir por la doctrina?
Sobre esta clase de culto divino he expresado que, comparado con el cristianismo del Nuevo Testamento, esto es jugar al cristianismo. La expresión es totalmente verdadera y plenamente característica. Porque, ¿qué es jugar, cuando se piensa en cómo debe ser entendida la palabra en este contexto? Es imitar, simular un peligro donde no hay ningún peligro; y así, lo que se busca es mantener la ilusión de que el peligro está. Así juegan los soldados a la guerra en el ejido; no hay ningún peligro, pero se actúa como si existiera, y el arte consiste precisamente en hacer todo ilusivamente, como si fuera una cuestión de vida o muerte. Y así se juega al cristianismo en la "cristiandad". Artistas dramáticamente vestidos comparecen en construcciones artísticas -no hay en verdad ningún peligro, es más, el maestro es funcionario real, que asciende gradualmente y hace carrera- y ahora juega dramáticamente al cristianismo, en resumen, hace comedia; le discursea acerca del renunciamiento, pero él mismo asciende gradualmente; le enseña a despreciar títulos y rangos mundanos, pero él mismo hace carrera; describe a los magníficos ("los profetas") que fueron asesinados, y la cantinela es siempre la misma: si hubiéramos vivido en el tiempo de nuestros padres, no nos habríamos unido a ellos para derramar la sangre de los profetas - nosotros, que construimos sus sepulcros y adornamos sus tumbas. Es decir que ni siquiera se quiere ser (como constante, encarecida y suplicantemente lo he propuesto) al menos tan honesto como para reconocer que no se es en absoluto mejor que quienes mataron a los profetas; no, se quiere aprovechar la circunstancia de que no se es contemporáneo con ellos para creerse mucho, mucho mejores que aquellos que los mataron, seres totalmente distintos de aquellos inhumanos -porque es obvio que lo somos, dado que construimos los sepulcros de los tan injustamente asesinados y adornamos sus tumbas.
Sin embargo la expresión "jugar al cristianismo", por más característica que sea, no puede ser usada por quien tiene autoridad. Este se expresa de otro modo.
Cristo lo llama -¡presta atención!- lo llama: Hipocresía. Y no sólo esto, sino que dice
-¡horrorízate!- él dice que esta culpa de hipocresía es un delito tan grande, justamente tan grande, como asesinar a los profetas, es decir, culpa de sangre. Sí, si pudiéramos preguntarle a él, quizá constestaría que esta culpa de hipocresía, justamente porque está tan bien escondida y lentamente se extiende por toda la vida, es una culpa mayor que la de quienes, en un arrebato de furia, asesinaron a los profetas.
Este es, pues, el juicio, el juicio de Cristo sobre la "cristiandad", sobre el culto divino dominical, sobre el cristianismo oficial. Horrorízate, pues de lo contrario quedarás colgado de eso. Es tan decepcionante, pues ¿acaso no somos personas de bien, verdaderos cristianos, nosotros, que construimos los sepulcros de los profetas y adornamos las tumbas de los justos, acaso no somos personas de bien, sobre todo comparados con los inhumanos que los asesinaron? Y además, ¿qué tenemos que hacer, si no podemos hacer más que estar dispuestos a dar de nuestro dinero para construir iglesias, etc., no escatimar en el pastor y además, escucharlo? El Nuevo Testamento responde: lo que tienes que hacer es, tienes que seguir a Cristo, sufrir, sufrir por la doctrina; el culto divino que quieres favorecer es hipocresía e igual a culpa de sangre. El pastor con su familia viven de que tú seas un hipócrita o de hacer de ti un hipócrita, o de conservarte en la condición de hipócrita.
"Así se convierten en testigos y aprueban los actos de sus padres: ellos los mataron y ustedes les construyen sepulcros." Lc 11,48.
Sí, el cristianismo de domingo y la enorme logia de pastores comerciantes naturalmente se enfurecen ante este discurso, que con una sola palabra cierra todos los negocios, desecha toda esta profesión autorizada por el rey, y no sólo esto, sino que advierte contra tal culto divino como contra culpa de sangre.
No obstante, es Cristo quien habla. Tan profundamente está unida la hipocresía con el hecho de ser hombre, que justo cuando el hombre natural se encuentra mejor que nunca y ha conseguido armarse un culto divino a su medida, se escucha el juicio de Cristo: Esto es hipocresía, es culpa de sangre. No es que mientras tu vida en los días laborables sea mundana, lo bueno en ti es que al menos los domingos vayas a la iglesia del cristianismo oficial; no, no, el cristianismo oficial es mucho peor que tu mundanal semana, es hipocresía, es culpa de sangre.
Como fundamento de la "cristiandad" yace esta verdad: el hombre es un hipócrita nato. El cristianismo del Nuevo Testamento era la verdad. Pero sagaz y pícaramente el hombre inventó un nuevo tipo de cristianismo, el de construir los sepulcros de los profetas y adornar las tumbas de los justos y decir: si hubiéramos vivido en el tiempo de nuestros padres. Y esto es lo que Cristo llama culpa de sangre.
Lo que el cristianismo quiere es: seguimiento. Lo que el hombre no quiere es, él no quiere sufrir, menos que nada la clase de sufrimiento propiamente cristiano, padecer a los hombres. Entonces quita el seguimiento, y con ello el sufrimiento, lo específicamente cristiano; entonces construye los sepulcros de los profetas: esto por un lado; entonces miente ante Dios, ante sí mismo, ante otros, diciendo que él es mejor que los que asesinaron a los profetas: esto por el otro lado. Hipocresía al principio e hipocresía al final, y según el juicio de Cristo, culpa de sangre.
Imagínate que la gente está reunida en una iglesia de la cristiandad, y que de repente entra Cristo: ¿qué crees que haría?
Bien, lo que haría puedes leerlo en el Nuevo Testamento.
Se dirigiría a los maestros - pues a la congregación la juzgaría como otrora: fueron desviados del camino- se dirigiría a los de "largas vestimentas", a los mercaderes, a los juglares, que transformaron la casa de Dios, si no en una cueva de ladrones, al menos en una boutique o en un puesto de feria, y les diría: "Ustedes, hipócritas; ustedes, serpientes; ustedes, raza de víboras"; y como otrora haría un azote de cuerdas para echarlos del templo (Juan 2:15).
Tú, que lees esto, si no conoces otra cosa sobre el cristianismo que lo que se dice en la perorata dominical, te revelarás contra mí -estoy totalmente preparado para ello, te parecerá que soy responsable de la más horrorosa blasfemia al presentar a Cristo de este modo, dirás "está poniendo en su boca palabras como serpientes, raza de víboras; esto es ciertamente espantoso, son palabras que nunca se escuchan en boca de ninguna persona instruida; y dejar que las repita varias veces es ciertamente tan terriblemente grosero; ¡y hacer de Cristo una persona que utiliza la violencia!"
Mi amigo, si puedes corroborarlo en el Nuevo Testamento. Ahora bien, cuando lo que se quiere alcanzar predicando y enseñando el cristianismo es una vida cómoda y placentera en una posición reputada, entonces la imagen de Cristo debe modificarse algo. Adornos, no, en eso no vamos a escatimar, oro y diamantes y rubíes, etc., no, los pastores lo miran con agrado, y les hacen creer a las personas que eso es cristianismo. Pero la severidad, esa severidad que es inseparable de la seriedad de lo eterno, hay que hacerla a un lado. Cristo se vuelve entonces una figura sentimental, un hombre siempre bueno -esto se relaciona con que el plato puede ir circulando durante el discurso y la comunidad puede tener ganas de poner algo y tirar unas monedas; ante todo se relaciona con que por temor a los hombres, se está en buen entendimiento con los hombres; mientras que el cristianismo del Nuevo Testamento es: por temor de Dios padecer a los hombres por la doctrina.
Pero "ay de ustedes, que construyen los sepulcros de los profetas" (enseñando al pueblo que este es el cristianismo del Nuevo Testamento) y "adornan las tumbas de los justos" (poniendo constantemente juntos el dinero y el cristianismo) y dicen "si nosotros" - sí, si ustedes hubieran vivido en el tiempo de los profetas, los habrían asesinado, es decir, habrían permitido ocultamente, como de hecho sucedió, que el pueblo lo hiciera y cargara con la culpa. Sin embargo, en vano se ocultan ustedes en la "cristiandad"; lo que está oculto queda revelado cuando la Verdad juzga: "así se convierten en testigos y aprueban los actos de sus padres, y colman la medida de sus padres, pues ellos los mataron y ustedes les construyen sepulcros." En vano se hacen los santos, en vano intentan al construir los sepulcros de los justos, mostrar cuán diferentes son de los impíos que los mataron. ¡Oh, la impotencia de la hipocresía para ocultarse! Fueron descubiertos. Justamente el construir los sepulcros de los justos y decir "si nosotros", justamente esto es matarlos, es ser hijos legítimos de aquellos impíos, hacer lo mismo que ellos, es ser testigos de los actos de los padres, aprobarlos, "colmar la medida de los padres", es decir, hacer lo que es aún peor.
[1] El obispo Mynster, primado de la Iglesia Luterana en Dinamarca, murió en enero de 1854. El profesor Martense, candidato a suceder a Mynster, pronunció el elogio fúnebre en el que afirmó que el fallecido "era un eslabón en la cadena sagrada de los testigos de la verdad que se extiende a través de las épocas, desde los días de los apóstoles". La expresión "testigo de la verdad" desencadenó en Kierkegaard la necesidad de señalar la distancia abismal que encontraba entre un miembro de la iglesia establecida, favorecido por el brillo mundano, y la figura de Cristo.
[2] Las citas han sido tomadas de la versión argentina de los Pbros. Armando J. Levoratti y Alfredo B. Trusso El Libro del Pueblo de Dios. La Biblia, Ediciones Paulinas, Madrid, 8º edición de mayo de 1993
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